domingo, 5 de fevereiro de 2012

jardim de contos


Flores e coisas.  O jardim sempre encheu de polem as frestas de mármore da fronte velha.  Dentro de cada flor, já se dizia no oriente, ainda em botão, operam-se cerimônias genéticas de transmutação de água em ouro.  Lembro bem, quando criança, as margaridas brancas, abriam-se como castanholas de Granada.  Bem no meio delas, engastada em fulcro sobre a camurça das sementes, podia-se ver claramente um piano de cauda com sua banqueta, mas só isso.

Abriram-se as camélias, e dentro delas avistaram-se desertos de grãos de areia azul e céu vermelho.  Dos gira-sóis, brotaram dois vasos comunicantes transparentes que talvez destilassem orvalho.  Ah... e dentro dos lírios, uma catedral gótica inteira iluminada, com missa e bispo.

A flor da quaresmeira ainda não abriu.  Trago já no bolso caneta e bloco, e um colete salva-vidas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

bola de cristal


não, cibele,
foi mesmo naquela esquina -
esquecestes tu?

escoavam as horas
como grãos de areia
numa ampulheta velha

as duas ruas
cruzaram-se como
quatro locomotivas

na da direita,
vinhas tu,
aos secos ecos
de saltos finos

na do sudeste,
vinha eu,
ou melhor, o que
sobraria de mim