quinta-feira, 24 de maio de 2012
três vacas
A vida não é feita de ações, é feita de esperas. Longas filas. As surradas revistas na mesinha do consultório. O cafezinho requentado na garrafa térmica. A música "easy listening" que se repete sem fim num sistema de som sem qualidade. Ser humano é esperar a vez: de nascer, de crescer, e talvez até de viver um pouco, enquanto esperamos a morte, que chega quando menos se espera. Aqui estou na minha poltrona, e aguardo. O quê? Não sei. Só sei que é uma espera: o tempo que não passa, uma ansiedade que só aumenta, e o desejo que chegue logo. Mas, quando chega, tardiamente, é apenas uma nova espera que se inicia.
Quando criou o mundo, Deus esperou o domingo para descansar. Nós, pós-modernos, esperamos o domingo para criar. Eis que o domingo chega, e acordamos tarde. As pirâmides do Egito, que tomam, resignadas, a eternidade das mãos do tempo, são elas o meu ideal. Só elas, em meio ao deserto infinito e silencioso. Todo grão de areia que, com o vento atinge o meu rosto, fala de um mundo sem nexo, de sonhos de eternidade, pela qual já não mais nos resta esperar.
domingo, 20 de maio de 2012
invitation au voyage
desta rede onde acalanto estas palavras
sobre vasta colina que vislumbra, alta,
florestas nitidamente próximas
de pinheiros e eucalyptus
sob o sol preguiçoso de inverno
desta mesma rede de algodão
partem estradas
a caravela estacionada no horizonte
lá permanece à espera, como eu,
da chegada da maré derradeira
que a libertará dos sonhos
e a embalará num ágil floco
de nuvem alva
as sombras da tarde
movem-se lentas, mas o fazem,
sob esta brisa imaginada
que se insinua como real
assim permaneço,
ansioso como quem parte,
e tão saudoso como quem chega,
querendo logo voltar...
para onde?
quem sabe?
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