terça-feira, 26 de março de 2013
Náutilus
as palavras que me faltam
são estas que aqui estão
derramei-as de improviso
em linhas solitárias
perdidas no silencioso caos
deste cosmos cibernético -
cuidado!
estas palavras são âncoras
de ferro batido,
enferrujado
sexta-feira, 15 de março de 2013
meu segredo
os sons do que agora escrevo
são como crisálidas que
um dia a casca romperão
e voarão noutras cabeças
como zonzas mariposas que
em seu vôo curto e inepto
invocarão a certeza do silêncio
que sucede à toda tempestade
pois o que digo é incerto
e ao mesmo tempo exato
nestas palavras se disfarçam
o que não posso dizer
embora já o tenha dito
quinta-feira, 7 de março de 2013
para Descartes
cada ato consigo faz
o contratempo do não ser,
e a incerteza do que será,
sou eu só movimento
interrompido, entrecortado,
do que ficou para trás
saudades tenho
do que virá -
quem sabe?
nada, impreterivelmente, explica
o porquê que tantas perguntas
permanecem sem respostas
sábado, 16 de fevereiro de 2013
revelação
procuro a essência do universo
que faz do grão de areia
um grão de areia
e uma montanha
procuro as vibrações primais
remanescentes do alfa
nas vastidões de vácuo
das galáxias
procuro a explicação da vida
incompreensível, banal,
entrecortada por raras fagulhas
de genialidade e êxtase
procuro a mim mesmo
nas palavras dos outros
e aos outros nas minhas falhas
eu busco pelas coisas
onde não mais estão
porque o porque do mundo,
esta dona severa e afável,
dos nossos destinos inexoráveis,
nada mais é que a Verdade
Teeteto
felicidade e filosofia, algo a ver?
seria um filósofo mais feliz
ou alguem alegre a mais pensar?
tenho um amigo que busca a euforia
na admiração dos outros
já outro amigo só fica feliz
quando come um biscoito
porisso talvez gordo fosse Platão
e tão impopular aos tolos
a felicidade que logo vem, logo vai,
a sabedoria, que custa a chegar, fica,
eu vou agora, pois feliz não estou,
e filósofos todos somos sem saber
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Pandora
então foi desse jeito?
foi assim que tudo passou...
e ninguém falou nada?
os que ouviram, se foram,
ninguém que sabia, disse
esta caixa de pedra
está cheia de pedra
cristal de rocha, quartzo,
pesada como basalto
sólida caixa de pedra
nela não cabem meus óculos
nem cabe mesmo mais nada
tampouco um átomo
nela guardei os detalhes
do que se passou
sem que soubéssemos
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
another day
vez por outra eu me deparo
e sigo em frente, inédito,
de todos os pensamentos
ela não ficou só
eu sigo em frente, pálido,
de todas as intrigas
ela vai longe, horizonte,
meu signo de sagitário
descansa em paz na parede
antes de chegar na chegada
capotei depressa, um record,
eu sigo em frente, intrépido,
mascando chiclete
como todos os outros
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Niccolò
saber fazer direito, já dizia Epictetus,
e depois esquecer a poeira, o cheiro,
das taturanas antípodas
e das centopéias de Taranto
agora sou da sociedade secreta
das andorinhas descalças
farei nas nuvens meu ninho
e nas estrelas amarras
eis que tudo se acalma
com a chegada da lua
certeza mesmo, só uma:
que, hoje, o dia
poderá não ter fim
poderá não ter fim
sábado, 2 de fevereiro de 2013
companheira
chove lá fora
do teatro que estou
ouço o som abafado
da tarantela das gotas
a peça vai já tarde
e logo também eu vou
o desfecho permanece
as perguntas
como eco ressoam
uma vez mais
juntam-se à chuva
que se intensifica
na escuridão
das estreitas ruas
as estrelas
atrás das nuvens
e a solidão
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
noite
ecos,
espelhos -
onde vivo
que não me ouço,
que não me vejo?
a última nota
do trinado,
nos mil cantos
da catedral
que tem o céu
por telhado
e uma acácia
no altar
a estrela guia
pingando prata
por breve instante
reluz, dourada,
a velha carpa
que se recolhe
tudo é silêncio
no azul do lago
Assinar:
Comentários (Atom)