quinta-feira, 24 de maio de 2012

três vacas


A vida não é feita de ações, é feita de esperas.  Longas filas.  As surradas revistas na mesinha do consultório.  O cafezinho requentado na garrafa térmica.  A música "easy listening" que se repete sem fim num sistema de som sem qualidade.  Ser humano é esperar a vez:  de nascer, de crescer, e talvez até de viver um pouco, enquanto esperamos a morte, que chega quando menos se espera.  Aqui estou na minha poltrona, e aguardo.  O quê?  Não sei.  Só sei que é uma espera: o tempo que não passa, uma ansiedade que só aumenta, e o desejo que chegue logo.  Mas, quando chega, tardiamente, é apenas uma nova espera que se inicia.

Quando criou o mundo, Deus esperou o domingo para descansar.  Nós, pós-modernos, esperamos o domingo para criar.  Eis que o domingo chega, e acordamos tarde.  As pirâmides do Egito, que tomam, resignadas, a eternidade das mãos do tempo, são elas o meu ideal.  Só elas, em meio ao deserto infinito e silencioso.  Todo grão de areia que, com o vento atinge o meu rosto, fala de um mundo sem nexo, de sonhos de eternidade, pela qual já não mais nos resta esperar.


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