terça-feira, 31 de janeiro de 2012

a busca

Nenhuma linguagem é objetiva
até que ir à bica necessite.

Três vezes minha sombra lancei
e sempre ao reverso deu ela,
com capa de caracol e chapéu côco,
tal como aquele acento, o circunflexo.

Neguei três vezes o início da noite,
pingada em ouro sobre um pranto de prata.
Hecateu dióscuro firmado em lascas de mármore,
parei na praia espessa, sulcado de marcas d'água.

Os dentes glorificados das plenas engrenagens
eram todos lubrificados com dentifrício em pó
ainda que em silêncio definhassem, sem pena.

A rádio-vitrola,
comida pelos cupins sem pernas,
e a padaria da esquina enchendo
com seus aromas de bolo fresco
a baunilha seca do esquecimento nosso.

Três vezes procurei por ti.
Esfinges encontrei, mais nada.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

cheiro de chuva


O cheiro da chuva nos traz lembranças.
A terra que chega às narinas, de onde vem?
Foge da tempestade, timidamente?
Trombetas de Jericó jorrando ozônio,
Abrupta queda de luz na tarde quente.

O cheiro da chuva nos dá conforto.
Renasce o árido em verdes lanças,
Porvir de novas auroras, límpidas,
Dias que sejam regados, talvez,
Com cristalinas lágrimas de orvalho.

O cheiro da chuva nos une.
Pressentido a tormenta,
Em silêncio paramos,
Suspensos no tempo.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

aquário de areia

ocultas
no relógio
pequenas engrenagens
costuram passados
inevitáveis

tic, tac,
o tique nervoso,
tremulam
peristálticas
miragens

um sorrir
de lampreia
espreita
da ampulheta
por horas

o tempo
que passa
não mais existe,
este nosso mundo
desfaz-se