sábado, 3 de dezembro de 2011
bleu
o azul do lago
no lago azul
de onde vem
azul tão blue?
vem lá do norte,
ou cá do sul?
o meu azul
é mais azul
que o do vizinho?
o nosso bleu
é diferente,
depende ele
de cada um?
o azul dela
não é dos olhos
mas sim dos sonhos
de quando a vejo
agora mesmo
os sons que adentram minha quieta casa nesta manhã de sábado
falam de um mundo que ainda adora acordar preguiçosamente,
roucos roncos de motores, o girar indiferente dos pneus no frio asfalto,
pequenos pássaros, andorinhas e pardais, em seus eternos pijamas pardos,
houve tempo em que o bater dos cascos dos pangarés de uma carroça ou outra
deslocando-se, desajeitada, sobre o quebra-cabeças dos paralelepípedos,
melancolicamente embaralhava-se à sinfonia dos sons familiares
e o leite era entregue na porta cedo em garrafas de vidro grosso, recicláveis.
ouço também agora o violoncelo e o cravo vindo do meu sistema de áudio
alternando-se em movimentos lentos e rápidos, o canto barroco se derrama
por todos os cantos do quarto, enquanto os pássaros, os mesmos pardais,
e outros carros, teimam em anunciar-se pela veneziana ainda fechada.
dois passados assim se unem: o da minha infância de vidros de leite e pangarés,
com o das perucas, pó de arroz, e cantatas - fundem-se nessas letras aqui que
já se vão num terceiro passado, talvez ainda mais saudoso por estar escrito,
e o leitor, que nada ou muito tem a ver com isto, entenderá mais uma vez
que o passado não é só o futuro do ontem, mas o refúgio dos aflitos.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
de sol a sol
aquele que lá vai
ladeira abaixo
não é um homem
tampouco um pássaro
chapéu de palha
sob um dos braços
agora segue
ladeira acima
chapéu de couro
com pernas finas
eis que ele para
lá bem no meio
da praça onde
ficava a roça
os pés de milho
e as muitas moças
que os colhiam
sem qualquer folga...
para poderem depois assistir a novela das oito com seus noivos.
Pimpinella
O livro sobre a mesa, nem novo nem velho, mas muito usado. Caligrafadas
às muitas páginas, breves notas a lápis e penas de cores diversas. O cheiro
de cera na sala de piso de ipê, tão intenso como na minha infância. Lá de fora,
o sol recorta-se em frestas ao chão.
"Pimpinella anisum -
verde cristal de açúcar,
bom para tosse,
e para esquecer do amor"
De todos os cantos, como espelhos, ecos de saltos altos. Então novamente silêncio,
sua presença só mais forte por não ser vista. Viro páginas, já não mais leio.
Passado em chamas, meu coração.
aurora
cantas assim por quê?
não vês que a noite já foi,
e que a manhã não veio?
choras assim por quê?
cada sombra agora esconde
um pequeno segredo do sol
vem, primavera e brisa
neste pequeno jardim ao lado
nascerão margaridas brancas
e a sós, sob a lua,
desmentirei o que não disse,
despertarei da tua esperança
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
novamente noite
novamente noite
as estrelas lá fora
todas a lançar seus raios
e eu aqui dentro só
sei que elas lá estão
e que não sabem
que aqui estou
o cruzeiro do sul
a andrômeda, e o aquário,
talvez até via láctea
lá esteja também
gira a terra no seu eixo
tão previsivelmente
que nem nos lembramos disso
ah, que bom seria
um girar que não só fosse
mas, que viesse
quando menos esperasse
talvez assim eu pudesse
retornar à minha infância
e, uma vez mais,
do meu quintal,
na noite bela de verão,
olhar, em êxtase,para as estrelas -
olhos nos olhos -
e adormecer
velha música
fantasmas não existem
exceto no mundo real
onde aparecem
com capas de zorro
e narizes de palhaço
a fazer cair folhas
no espelho do lago
e a soprar bolhas
no ebulidor
este gramofone
que não tenho no canto da sala
de velho verniz intrincado em sulcos
gravados no tempo
por mãos meladas em rum
e charleston
metamórfico gramofone
vasto caça-fantasma
quebrado
em seu mecanismo
de bronze pesado e sólido
a corda de aço permanece
energizada a ponto de estilhaço
romperá seu secular desejo
num único estalo seco,
seguido de eterno silêncio
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