sábado, 3 de dezembro de 2011
agora mesmo
os sons que adentram minha quieta casa nesta manhã de sábado
falam de um mundo que ainda adora acordar preguiçosamente,
roucos roncos de motores, o girar indiferente dos pneus no frio asfalto,
pequenos pássaros, andorinhas e pardais, em seus eternos pijamas pardos,
houve tempo em que o bater dos cascos dos pangarés de uma carroça ou outra
deslocando-se, desajeitada, sobre o quebra-cabeças dos paralelepípedos,
melancolicamente embaralhava-se à sinfonia dos sons familiares
e o leite era entregue na porta cedo em garrafas de vidro grosso, recicláveis.
ouço também agora o violoncelo e o cravo vindo do meu sistema de áudio
alternando-se em movimentos lentos e rápidos, o canto barroco se derrama
por todos os cantos do quarto, enquanto os pássaros, os mesmos pardais,
e outros carros, teimam em anunciar-se pela veneziana ainda fechada.
dois passados assim se unem: o da minha infância de vidros de leite e pangarés,
com o das perucas, pó de arroz, e cantatas - fundem-se nessas letras aqui que
já se vão num terceiro passado, talvez ainda mais saudoso por estar escrito,
e o leitor, que nada ou muito tem a ver com isto, entenderá mais uma vez
que o passado não é só o futuro do ontem, mas o refúgio dos aflitos.
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