segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

o envelhecimento do tempo



O tempo envelhece, tenho certeza agora mesmo.  Quando jovem, o tempo corria lento, como avestruz descalço nos pampas na hora do ocaso.  Isto está provado no fato de que, quando criança, nunca vi uma pessoa envelhecer (e também duvido que alguém o tenha!).  Meus avós, sempre os mesmos na sua sabedoria de fim de tarde preguiçosa e lenta.  Até eu mesmo não parecia mudar, ainda que meus sapatos desgastassem rapidamente.  Acho que foi na adolescência que as coisas começaram a ficar velhas.  O tempo pode ser acordado nesse metafórico instante de metamorfose.  Talvez fossemos crisálidas quando crianças -- a lagarta seria o embrião que muda rápido como as luas de saturno.  Enquanto crianças-crisálidas seríamos, ao menos externamente, em aparência, incólumes ao passar do tempo. Mas, talvez também estivessemos já, no nosso interior, amadurecendo em pernas e asas.  A adolescência foi mesmo essa abertura da caixa de pandora, um tipo de pecado não tão original.  O tempo voltou-se livre, ubíquito, jorrando como fogos de artifício em ouro e prata, inoxidáveis.  Só então comecei a ver a inexorável mão do tempo executando seus pequenas jogos perversos sobre as pessoas e sobre mim mesmo.  Eis que aquele que começou a escrever estas linhas alguns minutos atrás não é já o mesmo, pois sente a aceleração do tempo pulsar, como se cada letra fosse um rápido toque de relógio de pêndulo, e as sentenças concluíssem com um carrilhão ou um cantar de cuco.  Que o último ponto final caia seco e abrupto como uma lápide de mármore.

Nenhum comentário:

Postar um comentário