quarta-feira, 11 de julho de 2012
trópicos
os sons da manhã
falam para si mesmos
que o céu existe
e é amplo
a fala dos pássaros
paira no ar,
entrecortada, frágil,
abrupta
as brasas do fogo de ontem
relutam em ceder ao vento
e os cucos, em revoada,
retornam, inexistentes,
à imensidão dos ipês
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Diógenes
Faz tempo busco, como Diógenes, mas sem lanterna. Ainda assim, sombras espalham-se por onde quer que eu olhe e onde quer que a luz alcance. Sombras do olhar, o que não vejo, o atrás das coisas, ou seja, a maior parte do tudo.
O espaço é amplo, como uma catedral romanesca, escuro. Vultos e bólidos movimentam-se, céleres, num ar impregnado de cheiros velhos. Sei que num desses corredores ocultos existe uma câmera selada com cera de abelha. Dentro dela está o que busco. A décima sinfonia de Beethoven e todas as dez mil cantatas que Bach escreveria após cem anos de idade. Lá estão também os requiem que Mozart comporia para Carlitos e Einstein.
Dizem os apócrifos que esta câmera tem paredes de pedra polida.
domingo, 8 de julho de 2012
casulo 1
A mariposa-esfinge que esta noite na minha sala entrou, era calada e de pouco voar. Pousou logo num canto escuro e lá teceu seu casulo de lã, leite e lanolina sólida. No silêncio que se firmou, com afiada tesoura, cortei do casulo uma ponta, expondo um orifício cesurado por paredes finas de seda falsa. Lá dentro, na minha sala me vejo, para onde voa a mariposa-esfinge...
Lembro da matrioska de vime que vi na vitrina da loja outro dia. Lembro da mariposa-esfinge entrando na sala, e pronto me esqueço da matrioska de vime. Dentro do casulo de lã e leite, cortado, eis agora uma girafa, cujo pescoço passa pelo orifício e vai para fora, procurando sair na entrada. Eis da vida o mistério: lã e leite, semolina e óleo.
Lembro da matrioska de vime que vi na vitrina da loja outro dia. Lembro da mariposa-esfinge entrando na sala, e pronto me esqueço da matrioska de vime. Dentro do casulo de lã e leite, cortado, eis agora uma girafa, cujo pescoço passa pelo orifício e vai para fora, procurando sair na entrada. Eis da vida o mistério: lã e leite, semolina e óleo.
domingo, 1 de julho de 2012
queda livre
velho avião
que mora no ar
quando na terra está
e que lembra da terra
sempre que voa no azul
o ronco abafado
do seu estrangeiro motor
inunda o gelado ozônio
como sirene de guerra
camuflada no horizonte
para-quedistas que somos
mesmo quando despidos
ao som do avião - distante -
deixamos de lado as feridas
e mergulhamos nos sonhos
que mora no ar
quando na terra está
e que lembra da terra
sempre que voa no azul
o ronco abafado
do seu estrangeiro motor
inunda o gelado ozônio
como sirene de guerra
camuflada no horizonte
para-quedistas que somos
mesmo quando despidos
ao som do avião - distante -
deixamos de lado as feridas
e mergulhamos nos sonhos
quarta-feira, 27 de junho de 2012
ecos
O silêncio da noite confunde-se com o frio lá fora. Não chove, mas os sons dos pneus do carro que passa, contra o asfalto, desmentem-me. De fato, talvez nem seja noite. Tenho por conta que é dia, e chove. São quatro pequenos passos até a janela, mas até lá não vou. Sei que, ao abri-la, o dia transformar-se-ia em noite, e a chuva em seca.
Da minha poltrona contemplo a solidão, esta companheira silenciosa de noites que são dias e de dias que são noites. Juntos seguiremos - estóicos - os repetitivos ciclos das estações, enquanto encasulados nas paredes do meu quarto, ecos impacientemente aguardam para assombrar meus últimos passos.
sábado, 23 de junho de 2012
void
veloz,
aqui está -
nesta cesta
de vime
através
das frestas:
vermelhos
olhos
palha e feno
gafanhoto
mais pequeno
depois pó
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