segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

escaravelho velho


escaravelho vermelho no meio
do meu jardim de inverno,
sol aberto, praga egípcia -
eu olho o escaravelho vermelho
andar devagar como lesma
e penso comigo:
chegará novo, ou velho,
este pentelho?

tantas ovelhas nas colinas
da vitoriana Inglaterra
desapercebidas do escaravelho
e o escaravelho delas
ah, rainha velha,
valha-me, aparecida!

escravo que passa
no meu jardim de
inverno, desgraça,
pois é verão,
como um bólido lento,
cometa sem cauda,
empalhado leão

escaravelho vermelho
sob egípcio sol, Akhenaton,
no meu inverno
sem graça,
mais lento,
parando,
parado,
carcaça.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

duna

palavras são lavradas
atrapalhadamente
que me valha deus
e todas as almas

somos palavras
no princípio, o verbo,
depois, o precipício,
e o vácuo
até o chão, de pó,
pó de palavras
ao vento
seco

das caravanas
que já se foram
há séculos
e que nunca chegaram
erram agora, miragens,
no tenue entrecortar
de horizonte e sonhos

viro ao avesso
das letras
e me despeço
por traz das dunas
sem jeito


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

polimérica


a beleza foi abolida
por lei-decreto

não deu no www,
nem na TV por cabo,
num jornal, uma nota
escondida:
era ela besteira,
foi só erro de escrita

nos dicionários novos,
extirpadas, as rosas
esses vegetativos órgãos
de reprodução
e sexo

e o por do sol
apenas o ir do astro
e o vir da razão
que com a brisa
se esvai
num carretel
de nylon


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

a cor da noite

as cores, à noite,
unidas num único manto
no azul do lago
no verde das plantas
no ondular dos telhados

aguardam uníssonas
o momento,
em silêncio,
o primeiro raio de sol
não virá só
nem será último

flocos de luz em cascata
acenderão por dentro afora
a verdade
a esperança
em brilhantes incensos

ainda longe,
pressente a noite
pacientemente a sua hora
de revirar mistérios
e despertar a aurora


domingo, 18 de dezembro de 2011

circo celeste

de norte a sul, o vento
no azul celeste, nuvens
instala-se o circo
de graça, sem filas,
diversão para todos
que olharem pra cima
à moda antiga

um floco de algodão?
olhe mais perto...
um elefante! e sobre ele
um anão

eis depois a girafa
só pescoço, pernas finas
ri aberto o palhaço
de doidos cabelos
e pés de cortiça

a última nuvem
se vai agora
um branco coelho
a entrar na cartola


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

existência


é tempo de pensar depressa
e lento entender tampouco
forçado a acelerar promessas
e de se perceber louco

tento tudo, nada serve
nada muda, tudo é esmo
no passado, houve tempo
em que tínhamos dúvidas

a certeza é uma só
a de que de nada temos
por certo, ainda que
estejamos plenos

por fim
ser não é verbo,
nem mesmo adjetivo,
é sim um hiato
dos nossos sentidos


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

expresso


passageiro de mim mesmo
aonde vou, que não chego?
não trago bilhete, nem lanche
quando parti, a estação, tão só
dois pombos apenas ciscavam
farelos de pão inexistentes
dormentes, os trilhos fugiam
para além do horizonte, num ponto
que foge mais longe sempre

passageiro de mim mesmo
não reclamo do serviço
nem contente com ele fico
apenas leio, chacoalhado,
o jornal que achei ao lado
no banco, amarrotado, de ontem,
à manchete, na página um,
por ser de graça, nem dou atenção
perco-me, sem perceber,
ao sincopado bater dos vãos


o envelhecimento do tempo



O tempo envelhece, tenho certeza agora mesmo.  Quando jovem, o tempo corria lento, como avestruz descalço nos pampas na hora do ocaso.  Isto está provado no fato de que, quando criança, nunca vi uma pessoa envelhecer (e também duvido que alguém o tenha!).  Meus avós, sempre os mesmos na sua sabedoria de fim de tarde preguiçosa e lenta.  Até eu mesmo não parecia mudar, ainda que meus sapatos desgastassem rapidamente.  Acho que foi na adolescência que as coisas começaram a ficar velhas.  O tempo pode ser acordado nesse metafórico instante de metamorfose.  Talvez fossemos crisálidas quando crianças -- a lagarta seria o embrião que muda rápido como as luas de saturno.  Enquanto crianças-crisálidas seríamos, ao menos externamente, em aparência, incólumes ao passar do tempo. Mas, talvez também estivessemos já, no nosso interior, amadurecendo em pernas e asas.  A adolescência foi mesmo essa abertura da caixa de pandora, um tipo de pecado não tão original.  O tempo voltou-se livre, ubíquito, jorrando como fogos de artifício em ouro e prata, inoxidáveis.  Só então comecei a ver a inexorável mão do tempo executando seus pequenas jogos perversos sobre as pessoas e sobre mim mesmo.  Eis que aquele que começou a escrever estas linhas alguns minutos atrás não é já o mesmo, pois sente a aceleração do tempo pulsar, como se cada letra fosse um rápido toque de relógio de pêndulo, e as sentenças concluíssem com um carrilhão ou um cantar de cuco.  Que o último ponto final caia seco e abrupto como uma lápide de mármore.

sábado, 10 de dezembro de 2011

ascensão


escada velha de peroba
rosa bronzeada ao sol
de dez mil dias,
silencioso símbolo,
da queda dos anjos,
e do ascender dos sonhos
quando a desço
desce com ela meus anos
e quando a subo,
cada dia mais lento,
sinto suas fibras
contra as minhas,
amiga antiga, um dia
a descerei pela última vez
e seus secos estalos,
quando a noite chegar,
falarão das tantas vezes
que a subi sem a ouvir

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

cristal


o sol intrépido de hoje
lançou-se por raios longínquos
que agitaram até mesmo meu quarto
acendendo inefáveis segredos
na minha mesinha de mogno

quando perscrutei mais próximo
no belo cristal de quartzo das Gerais
vi um espectro petrificado dentro
translúcido, bizarro,
fantasma de 2 bilhões de anos
bem velhinho, coitado

sem pensar, imaginei
o que haveria pra espantar
naqueles tempos remotos?!?
estranhos são os espetáculos
debaixo do sol de dezembro

olhei então mais de perto
e notei que o fantasma trazia
na sua face perplexa
meus mesmos óculos grossos
e a mesma pinta na testa


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

sur


horizonte prata, cirrus
areia fina, vasto sur,
entrecortado vento
eterno, seco, tão frio,
tenros capins esparsos,
trêmulos, teimosamente
atados à planície
pequenos rastos,
perfeita águia solitária,
cheiro rarefeito de fogo,
um bandoneon
geme baixo
coração


drosófilas




                                                   semente
                                      órbita             luta
                               fogo          sino                   ontem      
                                        verdade              adaga
                                        hoje              não    sigo
                                  lua              ela              maré
                                      brisa                ego        romã
                                                    hipopótamo




segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

canção de ninar pós-moderna

dorme nenê
que a copa vai chegar
mamãe foi na balada
e papai no baile funk

dorme nenê
que o bicho papão
está nas ilhas do caribe
em lua de mel
com uma modelo

dorme nenê
antes que o mundo acabe
em 2012


fênix


no quente solo da mata, humidas folhas
viradas em todos os lados, palavras
embaralhadas ao nome, um só livro,
épico, vivo, verbo primordial cumprido,
estratos sobre estratos de meio-dias,
estalos sutis de abstratas estrelas,
absortas por si mesmas, acima, abaixo,
impressas em raios de ouro e sombra,
preto e branco, madeira e papel - quem sabe?
a negra tinta do fértil e perfumado humus,
o branco das nuvens que não choveu ainda,
blocos de impressão chineses, o tipógrafo
que um dia perdeu-se no bosque
e se encontrou por si na biblioteca
que fala da vida em plural
e que na morte, renasce




sábado, 3 de dezembro de 2011

soneto do descobrimento


sonhei viver de amor nos braços dela
fazer de seu sorrir meu só refúgio
cabelos, mãos, seus olhos cristalinos
que mais precisa alguém cá neste mundo?

destino tão perfeito merecia
se deus me desse outro e não eu mesmo
felicidade não se escolhe, todavia,
como sementes, espalha-se a esmo

segui por muito tempo o meu caminho
até que deparei por verdadeiro:
o céu e o mar comungam no horizonte

na caravela que se afasta, solitária,
sem salva-vidas, sequer remos ou velas,
firmo o timão contra a maré de remorsos


bleu


o azul do lago
no lago azul
de onde vem
azul tão blue?
vem lá do norte,
ou cá do sul?
o meu azul
é mais azul
que o do vizinho?
o nosso bleu
é diferente,
depende ele
de cada um?
o azul dela
não é dos olhos
mas sim dos sonhos
de quando a vejo


agora mesmo


os sons que adentram minha quieta casa nesta manhã de sábado
falam de um mundo que ainda adora acordar preguiçosamente,
roucos roncos de motores, o girar indiferente dos pneus no frio asfalto,
pequenos pássaros, andorinhas e pardais, em seus eternos pijamas pardos,
houve tempo em que o bater dos cascos dos pangarés de uma carroça ou outra
deslocando-se, desajeitada, sobre o quebra-cabeças dos paralelepípedos,
melancolicamente embaralhava-se à sinfonia dos sons familiares
e o leite era entregue na porta cedo em garrafas de vidro grosso, recicláveis.

ouço também agora o violoncelo e o cravo vindo do meu sistema de áudio
alternando-se em movimentos lentos e rápidos, o canto barroco se derrama
por todos os cantos do quarto, enquanto os pássaros, os mesmos pardais,
e outros carros, teimam em anunciar-se pela veneziana ainda fechada.

dois passados assim se unem: o da minha infância de vidros de leite e pangarés,
com o das perucas, pó de arroz, e cantatas - fundem-se nessas letras aqui que
já se vão num terceiro passado, talvez ainda mais saudoso por estar escrito,
e o leitor, que nada ou muito tem a ver com isto, entenderá mais uma vez
que o passado não é só o futuro do ontem, mas o refúgio dos aflitos.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

de sol a sol


aquele que lá vai
ladeira abaixo
não é um homem
tampouco um pássaro
chapéu de palha
sob um dos braços

agora segue
ladeira acima
chapéu de couro
com pernas finas

eis que ele para
lá bem no meio
da praça onde
ficava a roça
os pés de milho
e as muitas moças
que os colhiam
sem qualquer folga...

para poderem depois assistir a novela das oito com seus noivos.



Pimpinella


O livro sobre a mesa, nem novo nem velho, mas muito usado.  Caligrafadas
às muitas páginas, breves notas a lápis e penas de cores diversas.  O cheiro
de cera na sala de piso de ipê, tão intenso como na minha infância.  Lá de fora,
o sol recorta-se em frestas ao chão.

    "Pimpinella anisum -
    verde cristal de açúcar,
    bom para tosse,
    e para esquecer do amor"

De todos os cantos, como espelhos, ecos de saltos altos.  Então novamente silêncio,
sua presença só mais forte por não ser vista.  Viro páginas, já não mais leio.
Passado em chamas, meu coração.


aurora


cantas assim por quê?
não vês que a noite já foi,
e que a manhã não veio?

choras assim por quê?
cada sombra agora esconde
um pequeno segredo do sol

vem, primavera e brisa
neste pequeno jardim ao lado
nascerão margaridas brancas
e a sós, sob a lua,
desmentirei o que não disse,
despertarei da tua esperança


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

novamente noite


novamente noite
as estrelas lá fora
todas a lançar seus raios
e eu aqui dentro só
sei que elas lá estão
e que não sabem
que aqui estou
o cruzeiro do sul
a andrômeda, e o aquário,
talvez até via láctea
lá esteja também
gira a terra no seu eixo
tão previsivelmente
que nem nos lembramos disso

ah, que bom seria
um girar que não só fosse
mas, que viesse
quando menos esperasse
talvez assim eu pudesse
retornar à minha infância
e, uma vez mais,
do meu quintal,
na noite bela de verão,
olhar, em êxtase,
para as estrelas -
olhos nos olhos -
e adormecer

velha música


fantasmas não existem
exceto no mundo real
onde aparecem
com capas de zorro
e narizes de palhaço
a fazer cair folhas
no espelho do lago
e a soprar bolhas
no ebulidor

este gramofone
que não tenho no canto da sala
de velho verniz intrincado em sulcos
gravados no tempo
por mãos meladas em rum
e charleston
metamórfico gramofone
vasto caça-fantasma
quebrado

em seu mecanismo
de bronze pesado e sólido
a corda de aço permanece
energizada a ponto de estilhaço
romperá seu secular desejo
num único estalo seco,
seguido de eterno silêncio