quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ao mar, finalmente...

eis que sigo sozinho
singrando aos sete ventos,
mas, sem nau ou capacete,
apenas com meus dois pés
sem deixar rastro

infelizmente, é fato
que não singro,
mentira,
sigo mesmo é descalço
na cadeira de balanço
qual Sisifo,
no meio do caminho,
desmaio






sábado, 18 de agosto de 2012

caleidoscópio

é novamente hoje
e as cinzas do ontem
repousam nos ombros
a responsabilidade do mundo
na obrigatória felicidade
mais um sorriso esqueço
já que não me vêem
solitário com todos
os pensamentos
na encruzilhada dos sonhos
sou feliz num deles,
fantasma noutro,
mas, nunca eu mesmo -
pois o dom da identidade
foi destinado aos deuses
e esses não mais existem


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

ancoradouro


o dia de hoje é como uma página em branco
nela escreverei com giz de cera uma história
igual e diferente daquela de ontem:
os pássaros cantarão no jardim,
as rolinhas voarão no quintal,
e as linhas tortas do destino
talvez já definidas ao vento
cruzarão meu corpo por dentre labirintos
com muitos desvios insinuantes --
permanecerão fechados como crisálidas,
para sempre cristalizados, inatingíveis agora,
e no horizonte avistarei, ao por do sol,
caravelas brancas sobre um mar barroco
partirão, ligeiras, rumo à estrela vesper
enquanto o manto da noite me cobrirá
de remorsos por não zarpar



terça-feira, 7 de agosto de 2012

eco


falei pro ar, sozinho,
agora, uma palavra breve

aonde foi parar,
essa breve palavra?

soltei no rio, sozinho,
agora, uma rosa em botão

aonde foi parar,
esse botão de rosa?

ouvi na noite, sozinho,
agora, um pio de coruja

aonde foi parar,
esse eco que não para?


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

estilhaços

e s  t   i   l    h     a       ç       o           s
assim começava o poema concreto
seria o primeiro e último, porque,
no fim das contas, não gosto,
então, - eu - não o escrevi
apenas o deixei dentre
as coisas que seriam
mas que não são
embora sejam


segunda-feira, 16 de julho de 2012

diplodocus


o frio é um trilobita ativo
sinto nos pés suas farpas
e deixo no ar uma estátua
em negativo, cálida,
esfacelada, de pronto,
ao vento gélido

medusas transparentes
flutuam no espaço
sem serem vistas,
caras pálidas

fósseis todos nós somos
incrustados no ar,
esta matriz seca,
que a tudo une,
inescrutável


sexta-feira, 13 de julho de 2012

casulo 3


um casulo é uma pílula,
um centro cercado por fora
e bem no meio uma fina,
mole e flexível membrana

ora, como nas pílulas
o nada que está no casulo
sonha que o fora é o dentro
e que o dentro é o mundo

este casulo em que vivo
possui um pequeno furo
por ele porei a membrana
bem lentamente, contudo

quarta-feira, 11 de julho de 2012

casulo 2

Esta é a história do homem chamado Casulo.
Casulo casou com Camila e teve três filhos:
Calvino, Cecília, e Casmurro
Sem falar dum que não veio
de nome Joaquim

Viveram felizes pra sempre
Até que um dia Casulo colou na parede
Como um casulo de verdade,
Não como humano, que também era

Não mais feliz Casulo estava
Ser mariposa ou borboleta queria
Vestir suas asas, fugir pro além

Metamorfose, milagre, quem sabe?
Não veio, nem cedo nem tarde

Por Seu Epitáfio:  Quo Vadis?


trópicos


os sons da manhã
falam para si mesmos
que o céu existe
e é amplo

a fala dos pássaros
paira no ar,
entrecortada, frágil,
abrupta

as brasas do fogo de ontem
relutam em ceder ao vento

e os cucos, em revoada,
retornam, inexistentes,
à imensidão dos ipês


segunda-feira, 9 de julho de 2012

o charco

sapo -
inácio

sapo -
pemba

sapo -
léo

no charco,
uma rã tensoativa  -
ri


Diógenes


Faz tempo busco, como Diógenes, mas sem lanterna.  Ainda assim, sombras espalham-se por onde quer que eu olhe e onde quer que a luz alcance.  Sombras do olhar, o que não vejo, o atrás das coisas, ou seja, a maior parte do tudo.

O espaço é amplo, como uma catedral romanesca, escuro.  Vultos e bólidos movimentam-se, céleres, num ar impregnado de cheiros velhos.  Sei que num desses corredores ocultos existe uma câmera selada com cera de abelha.  Dentro dela está o que busco.  A décima sinfonia de Beethoven e todas as dez mil cantatas que Bach escreveria após cem anos de idade.  Lá estão também os requiem que Mozart comporia para Carlitos e Einstein.

Dizem os apócrifos que esta câmera tem paredes de pedra polida.


domingo, 8 de julho de 2012

casulo 1

A mariposa-esfinge que esta noite na minha sala entrou, era calada e de pouco voar.  Pousou logo num canto escuro e lá teceu seu casulo de lã, leite e lanolina sólida.  No silêncio que se firmou, com afiada tesoura, cortei do casulo uma ponta, expondo um orifício cesurado por paredes finas de seda falsa.  Lá dentro, na minha sala me vejo, para onde voa a mariposa-esfinge...

Lembro da matrioska de vime que vi na vitrina da loja outro dia.  Lembro da mariposa-esfinge entrando na sala, e pronto me esqueço da matrioska de vime.  Dentro do casulo de lã e leite, cortado, eis agora uma girafa, cujo pescoço passa pelo orifício e vai para fora, procurando sair na entrada.  Eis da vida o mistério: lã e leite, semolina e óleo.

domingo, 1 de julho de 2012

queda livre

velho avião
que mora no ar
quando na terra está
e que lembra da terra
sempre que voa no azul

o ronco abafado
do seu estrangeiro motor
inunda o gelado ozônio
como sirene de guerra
camuflada no horizonte

para-quedistas que somos
mesmo quando despidos
ao som do avião - distante -
deixamos de lado as feridas
e mergulhamos nos sonhos


quarta-feira, 27 de junho de 2012

ecos


O silêncio da noite confunde-se com o frio lá fora.  Não chove, mas os sons dos pneus do carro que passa, contra o asfalto, desmentem-me.  De fato, talvez nem seja noite.  Tenho por conta que é dia, e chove.  São quatro pequenos passos até a janela, mas até lá não vou.  Sei que, ao abri-la, o dia transformar-se-ia em noite, e a chuva em seca.

Da minha poltrona contemplo a solidão, esta companheira silenciosa de noites que são dias e de dias que são noites.  Juntos seguiremos - estóicos - os repetitivos ciclos das estações, enquanto encasulados nas paredes do meu quarto, ecos impacientemente aguardam para assombrar meus últimos passos.


sábado, 23 de junho de 2012

void


veloz,
aqui está -
nesta cesta
de vime

através
das frestas:
vermelhos
olhos

palha e feno
gafanhoto
mais pequeno
depois pó


quinta-feira, 24 de maio de 2012

três vacas


A vida não é feita de ações, é feita de esperas.  Longas filas.  As surradas revistas na mesinha do consultório.  O cafezinho requentado na garrafa térmica.  A música "easy listening" que se repete sem fim num sistema de som sem qualidade.  Ser humano é esperar a vez:  de nascer, de crescer, e talvez até de viver um pouco, enquanto esperamos a morte, que chega quando menos se espera.  Aqui estou na minha poltrona, e aguardo.  O quê?  Não sei.  Só sei que é uma espera: o tempo que não passa, uma ansiedade que só aumenta, e o desejo que chegue logo.  Mas, quando chega, tardiamente, é apenas uma nova espera que se inicia.

Quando criou o mundo, Deus esperou o domingo para descansar.  Nós, pós-modernos, esperamos o domingo para criar.  Eis que o domingo chega, e acordamos tarde.  As pirâmides do Egito, que tomam, resignadas, a eternidade das mãos do tempo, são elas o meu ideal.  Só elas, em meio ao deserto infinito e silencioso.  Todo grão de areia que, com o vento atinge o meu rosto, fala de um mundo sem nexo, de sonhos de eternidade, pela qual já não mais nos resta esperar.


domingo, 20 de maio de 2012

invitation au voyage


desta rede onde acalanto estas palavras
sobre vasta colina que vislumbra, alta,
florestas nitidamente próximas
de pinheiros e eucalyptus
sob o sol preguiçoso de inverno
desta mesma rede de algodão
partem estradas

a caravela estacionada no horizonte
lá permanece à espera, como eu,
da chegada da maré derradeira
que a libertará dos sonhos
e a embalará num ágil floco
de nuvem alva

as sombras da tarde
movem-se lentas, mas o fazem,
sob esta brisa imaginada
que se insinua como real

assim permaneço,
ansioso como quem parte,
e tão saudoso como quem chega,
querendo logo voltar...
para onde?
quem sabe?


domingo, 25 de março de 2012

hora staccato


Estava tudo claro desde sempre.   As primeiras fotos do cosmo.  Aquelas espirais e elipses clonadas em todas as ilhas de matéria esparsa dentre sólidas massas de vácuo frio e inescrutável.  Os mesmos padrões estampados nos sistemas solares e luas aprisionadas dos planetas.  Sob aumento, espirais e elipses também se revelaram inexoravelmente nas nuvens, oceanos, continentes, estações e dias.  Ciclos espirais e elípticos, abertos e fechados mas igualmente infinitos, prodigiosamente simples ainda que disfarçados em inusitadas máscaras.  A simplicidade do universo foi sempre óbvia.  Ainda assim, teimávamos em escrever poemas e a morrer de amor.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

jardim de contos


Flores e coisas.  O jardim sempre encheu de polem as frestas de mármore da fronte velha.  Dentro de cada flor, já se dizia no oriente, ainda em botão, operam-se cerimônias genéticas de transmutação de água em ouro.  Lembro bem, quando criança, as margaridas brancas, abriam-se como castanholas de Granada.  Bem no meio delas, engastada em fulcro sobre a camurça das sementes, podia-se ver claramente um piano de cauda com sua banqueta, mas só isso.

Abriram-se as camélias, e dentro delas avistaram-se desertos de grãos de areia azul e céu vermelho.  Dos gira-sóis, brotaram dois vasos comunicantes transparentes que talvez destilassem orvalho.  Ah... e dentro dos lírios, uma catedral gótica inteira iluminada, com missa e bispo.

A flor da quaresmeira ainda não abriu.  Trago já no bolso caneta e bloco, e um colete salva-vidas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

bola de cristal


não, cibele,
foi mesmo naquela esquina -
esquecestes tu?

escoavam as horas
como grãos de areia
numa ampulheta velha

as duas ruas
cruzaram-se como
quatro locomotivas

na da direita,
vinhas tu,
aos secos ecos
de saltos finos

na do sudeste,
vinha eu,
ou melhor, o que
sobraria de mim


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

a busca

Nenhuma linguagem é objetiva
até que ir à bica necessite.

Três vezes minha sombra lancei
e sempre ao reverso deu ela,
com capa de caracol e chapéu côco,
tal como aquele acento, o circunflexo.

Neguei três vezes o início da noite,
pingada em ouro sobre um pranto de prata.
Hecateu dióscuro firmado em lascas de mármore,
parei na praia espessa, sulcado de marcas d'água.

Os dentes glorificados das plenas engrenagens
eram todos lubrificados com dentifrício em pó
ainda que em silêncio definhassem, sem pena.

A rádio-vitrola,
comida pelos cupins sem pernas,
e a padaria da esquina enchendo
com seus aromas de bolo fresco
a baunilha seca do esquecimento nosso.

Três vezes procurei por ti.
Esfinges encontrei, mais nada.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

cheiro de chuva


O cheiro da chuva nos traz lembranças.
A terra que chega às narinas, de onde vem?
Foge da tempestade, timidamente?
Trombetas de Jericó jorrando ozônio,
Abrupta queda de luz na tarde quente.

O cheiro da chuva nos dá conforto.
Renasce o árido em verdes lanças,
Porvir de novas auroras, límpidas,
Dias que sejam regados, talvez,
Com cristalinas lágrimas de orvalho.

O cheiro da chuva nos une.
Pressentido a tormenta,
Em silêncio paramos,
Suspensos no tempo.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

aquário de areia

ocultas
no relógio
pequenas engrenagens
costuram passados
inevitáveis

tic, tac,
o tique nervoso,
tremulam
peristálticas
miragens

um sorrir
de lampreia
espreita
da ampulheta
por horas

o tempo
que passa
não mais existe,
este nosso mundo
desfaz-se